segunda-feira, 26 de abril de 2010

O despertar da metrópole

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Fortaleza chega aos anos 40 com uma população de 180.000 habitantes. Durante a década a cidade registrou uma taxa de crescimento demográfico de 50%, marca superior a de Salvador.

Nesse período evidencia-se cada vez mais a expansão urbana do eixo sudoeste, como também da área loteada no sentido leste. Esta ocupação intensiva para o sudoeste se deve à localização da zona industrial, que funciona como um polo de atração para um grande contingente de migrantes do interior do Estado, gerando como consequência, o surgimento das favelas de Fortaleza, além do crescimento de núcleos antigos, como a favela do Pirambu.

Vista aérea parcial da cidade, onde podemos ver, além da região central com seus prédios, a Aldeota pouco habitada e, na parte superior da foto, a praia do futuro

A estrutura da localização residencial e industrial em Fortaleza fez deslocar para oeste as indústrias, pois além da relação distância/moradia/trabalho, a via férrea - e as próprias fábricas - desvalorizavam os terrenos do entorno, “permitindo-se” o acesso habitacional aos trabalhadores e classe de baixa renda. As elites, por sua vez, começavam a se transferir para a zona leste da cidade, mais precisamente a Aldeota.

Ao mesmo tempo, era crescente o interesse das classes abastadas pelos espaços à beira-mar, onde se edificavam casas de luxo e mansões a partir da Praia do Peixe, atual Iracema. Essa ocupação sistemática seria responsável, nas décadas seguintes, pela transformação radical do litoral leste da cidade da cidade, até então ocupada por inúmeras colônias de pescadores.

Foto do litoral leste da cidade, onde futuramente seria construída a Avenida Beira-Mar

Os bairros em Fortaleza nunca foram bem definidos, não se sabendo onde iniciam nem até onde vão. Além desse fato, vários bairros mudavam de nome, o que ajudava a confundir mais ainda.

Segundo o pesquisador Marciano Lopes, "a Parangaba era Arronches, Pirocaia era o nome do atual Montese, Carlito Pamplona era Brasil Oiticica, Açude João Lopes era como se chamava o atual Morro do Ouro. São Gerardo era Alagadiço, Antônio Bezerra era Barro Vermelho, a Praia de Iracema era Praia do Peixe. Aldeota era Outeiro e, também Aldeiota. Dionísio Torres era Estância, Castelão era Mata Galinha e Parquelândia ocupa a área que antes era do Campo do Pio e do Coqueirinho. Alto da Balança era o nome original da atual Aerolândia e o Lagamar agora é Tancredo Neves. Caso peculiar: o antigo Otávio Bonfim teve o nome trocado para Farias Brito, porém ninguém aceitou a mudança e o bairro continua a ser conhecido como Otávio Bonfim. Prainha é o nome correto da área antiga onde agora está o Centro Dragão do Mar e que o povo, por falta de informação chama Praia de Iracema. Incorreto: a Praia de Iracema é mais adiante. A parte alta daquele pequeno bairro, onde está a Praça Cristo Redentor era o Outeiro da Prainha. Cercado do Zé Padre é aquele conglomerado, arremedo de favela, entre as avenidas Duque de Caxias e Bezerra de Menezes, logo após a Praça São Sebastião. Parque Americano era uma pequena área entre a Rua Padre Valdevino e o bairro da Piedade. O nome surgiu devido a existência ali, de um parque de diversões, instalado pelo dono do famoso Bar Americano. Marcou época mas hoje só existe na memória dos mais velhos".

Prédio da Casa Plácido, do comerciante Plácido de Carvalho, era loja de produtos importados situada na Praça do Ferreira

De acordo com o testemunho de Marciano Lopes, "as lojas mais chiques estavam na Praça do Ferreira, como a Sloper, uma rede de lojas chiquérrimas nos moldes das lojas de Paris. Vendia vestidos, chapéus, sapatos, bijuterias finíssimas... Todo o comércio era no Centro. Não se encontrava nenhuma agência bancária fora dele, nem lojas. Nos bairros tinham um pequeno armarinho para abastecer costureiras de botão de fita, de elástico... E tinham as padarias e as bodegas, mas as mercearias de luxo eram no Centro. As famílias mandavam o chofer levar a lista aquelas mercearias chiques, a Joana d’Arc, Casa Tupi, Miscelânea Casa Santa Clara, Casa Tabajara. Elas despachavam com artigos finos, vinhos franceses e alemães e mandava entregar em casa".

São também desse período as primeiras tentativas de induzir a verticalização da área comercial. A cidade então já conhecia, desde a década de 30, as novas técnicas construtivas. O concreto armado começava a sobrepor-se às paredes de alvenaria e os engenheiros dominavam o padrão arquitetônico e construtivo. Foi no centro, no entanto, que se verificou com mais intensidade a materialização desse processo. São exemplos das novas técnicas os edifícios Oriente e Atlântico na esquina da Rua Major Facundo com Castro Silva. Estas edificações da área central persistem sendo uma expressão da arquitetura moderna.

Imagem panorâmica do centro de Fortaleza no início dos anos 40

As primeiras obras de destaque da verticalização das construções ficaram reservadas, em geral, para o uso comercial no centro da cidade. Essa tendência podia ser notada em prédios como os Correios e Telégrafos em 1934 (com 3 pavimentos), Edifício Parente em 1936 (com 5 pavimentos), Edifício Carneiro em 1938 (com 5 pavimentos), Cine Diogo em 1940 (com 9 pavimentos), Edifício Prudência em 1947 (com 7 pavimentos).

No âmbito cultural, os anos 40 são uma espécie de divisor de águas entre a Fortaleza provinciana das décadas anteriores e a grande metrópole na qual a cidade se tornaria.

Praça do Ferreira mostrando em destaque a Coluna da Hora e, parcialmente, o Cine São Luiz ainda em construção

Em 1942, os visitantes Domingos Laurito e Nelson Silveira Martins, registraram em Terra do Brasil suas impressões sobre a cidade: "Fortaleza dá uma impressão magnífica. Vista no conjunto é a mais linda cidade do norte. É uma cidade nova, parecendo que acabou de ser construída. Em pleno centro ergue-se a Coluna da Hora, na Praça do Ferreira, nas imediações da qual estão os principais estabelecimentos comerciais, cafés, bares, os cinemas Moderno, Majestic e Politeama em em construção o lindíssimo São Luiz. Em todo o Norte, depois do Rio, não existem cinemas iguais aos de Fortaleza".

A inauguração das ondas curtas acelerou sobremaneira o desenvolvimento do rádio, causando naturalmente um impacto social no contexto histórico em que se expandiu.

No dia 29 de agosto de 1941, a Ceará Rádio Clube iniciou às transmissões em ondas curtas e inaugurou seus novos estúdios. A emissora assumiria, a partir de então, a posição de veículo de comunicação de massa, tornando-se referência cultural na cidade durante anos.

Sede da antiga Ceará Rádio Clube na avenida João Pessoa, no bairro Damas

Segundo Eduardo Campos, “o entretenimento esteve presente na cerimônia de inauguração das novas instalações da Ceará Rádio Clube, naquele ano de 1941. A programação musical foi iniciada pelo maestro italiano, recém-contratado pela PRE-9, Hercules Vareto. Na sequência, no auditório da emissora, sucederam-se várias apresentações de artistas locais e nacionais, destacando-se o grupo “4 Azes e 1 Coringa” e “o Cantor das Multidões”, Orlando Silva, a grande atração do evento. “A cidade parou para receber a grande voz romântica do cancioneiro nacional, cantor que disputava as preferências do público juntamente com Francisco Alves, ‘o rei da voz’, que antes visitara o Ceará”.

Eram os tempos da Segunda Guerra Mundial e, Getulio Vargas, depois de enormes pressões para assumir posição junto aos aliados, declarou guerra à Alemanha em 1942. Não se via há muito tempo uma euforia tão grande no povo do Ceará em participar de uma guerra. A população estava revoltada com a covardia dos ataques aos navios brasileiros. Os estudantes da Faculdade de Direito organizavam passeatas que carreavam multidões. Em 1943 um novo torpedeamento de navios levou os estudantes à loucura. Saíram em passeata e queimaram as Lojas Pernambucanas de propriedade de alemães e depois a loja De Francesco de propriedade de italianos.

Parque da Liberdade com vista para a Igreja do Sagrado Coração de Jesus

Fortaleza passou por blecautes e pelo medo de ser atacada por submarinos alemães. O governo brasileiro cedeu bases no Nordeste para operações do Exército e a Aeronáutica Norte-Americana. Uma destas bases foi instalada em Fortaleza no atual bairro do Pici. Sob uma forte propaganda governamental de migração, cerca de 30 mil cearenses tornaram-se Soldados da Borracha, produzindo esse produto na Amazônia para abastecer os exércitos aliados.

Na década de 1940 começou a construção do porto na enseada do Mucuripe. Para isto, foi necessária a construção de vários enrocamentos que provocaram alterações em parte do litoral cearense, surgindo aí à praia Mansa. Em 25 de dezembro de 1947, foi inaugurado o Porto do Mucuripe, passando a ser feito ali todo o serviço de embarque e desembarque de passageiros e o transporte de cargas nacionais, antes realizado na Ponte Metálica.

Porto de Fortaleza nos anos 40, mais conhecido como Ponte Metálica

Fortaleza abandonaria de vez os últimos costumes da sua “fase francesa” e passaria a ver nos Estados Unidos o novo modelo a ser seguido. Sai o champanhe e entra a coca-cola. A fama do refrigerante era tanta que as moças que namoravam os soldados e oficiais americanos eram apelidadas de "coca-colas". Estima-se que entre os anos de 1943 e 1946, cerca de 50 mil americanos passaram por Fortaleza.

“Os anos 40 marcam uma mudança na orientação dos modelos estrangeiros entre nós. Os padrões Europeus vão ceder lugar aos valores americanos, transmitidos pela publicidade, cinema e pelos livros em língua inglesa que começam a superar em número as publicações de origem francesa (...) Os padrões de orientação vigentes são, portanto, os do mundo do star system e do american broadcasting. No rádio, este é o período em que a música americana se expande, e se consolida uma forma de tocar “boa música”, a orquestral, que se constitui tendo por modelo os conjuntos americanos”. (Renato Ortiz)

Aventura e coragem

Quatro pescadores cearenses se lançaram ao mar para uma viagem que entrou para a história. Manoel Olímpio Meira (Jacaré), Raimundo Correia Lima (Tatá), Manuel Pereira da Silva (Mané Preto) e Jerônimo André de Souza (Mestre Jerônimo), que a bordo de uma jangada singraram os 2.381 km que separam Fortaleza do Rio de Janeiro, sem bússola ou carta náutica.

Partiram da antiga Praia do Peixe (hoje, Iracema), em 14 de setembro de 1941, e chegaram ao seu destino dois meses depois.

Antiga Praia do Peixe onde começou a jornada dos jangadeiros cearenses (foto de 1946)

Os jangadeiros queriam chamar a atenção do País e do governo para o estado de abandono em que viviam os 35 mil pescadores do Ceará. Morando em toscas palhoças, nem do Instituto de Aposentadoria e Pensão dos Marítimos eles recebiam ajuda. O presidente da República precisava saber daquilo. Ficou sabendo.

Em 16 de novembro, Getulio Vargas recebeu os quatro jangadeiros, que pouco antes haviam sido acolhidos apoteoticamente pela população carioca e conduzidos em carro aberto até o Palácio do Catete.

Jacaré, Tatá, Mané Preto e Mestre Jerônimo em foto de 1942

O retorno a Fortaleza, em 1º de dezembro, após sete horas de voo, foi uma apoteose ainda maior que a do Rio. Um cortejo de 150 automóveis seguiu os heróis da terra do aeródromo do Alto da Balança ao Jangada Clube, na Praia de Iracema, onde foram recebidos, entre outros, pelo interventor Menezes Pimentel.

A odisseia da São Pedro, contudo, estava condenada a entrar para a história do cinema americano. Orson Welles tomou conhecimento da proeza de Jacaré & Cia, e decidiu realizar, com base nessa história, o segundo episódio brasileiro de It's All True, o filme pan-americano que o governo Roosevelt há pouco lhe encomendara.

O líder dos jangadeiros Manoel Olímpio Meira (Jacaré)

Dois meses mais tarde, Jacaré e seus três companheiros foram levados de avião até o Rio. Rodariam no aeroporto a despedida do Rio e reconstituiriam, numa praia da Barra da Tijuca, a triunfal chegada da jangada São Pedro à Baía de Guanabara. Várias tomadas da chegada ao Rio chegaram a ser feitas, no dia 19, mas uma manobra infeliz da lancha que rebocava a jangada a teria virado, jogando ao mar agitado os seus quatro tripulantes. Três se salvaram. O corpo de Jacaré desapareceu e nunca foi encontrado.

Um comentário:

  1. Primeiramente, queria parabenizar vocês por essa iniciativa tão louvável. Muito bacana essa maneira que vocês 'arrumaram' para contar a história de Fortaleza.
    Estou fazendo um trabalho sobre a cidade, mas especificamente sobre a década de 40 (seu contexto histórico, seus hábitos, a indumentária dos moradores, etc.).
    Vocês teriam alguma referência bibliográfica para me indicar? Aguardo contato (pedro_prece@yahoo.com.br).

    Agradeço desde já. Abraços!

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